Guias de Viagem e Arte

 
 
mar 03 2015

A Madona Sistina e os anjos de Rafael | O que ver em Dresden

Tenho que ser sincera com você, apesar de ter me apaixonado por Dresden, a princípio foi um quadro que me fez passar uma noite na cidade. Cheguei numa segunda-feira, dia que a Gemaldegalerie estava fechada, e não podia sair de lá sem ver aquele Rafael que me fascinava desde que era uma adolescente, muito antes de entender qualquer patavina de arte.

Ando nesta vibe de ir atrás destes quadros que me seduziram sem motivos aparentes, e para exorcizá-los necessito esta proximidade. Por que exorcizá-los? Porque eles perseguem meus sonhos, estão ali naqueles momentos que tento loucamente deixar minha mente em branco, em outra inútil tentativa de meditar.
Rafael Sanzio - Madona Sisitina e seu mecenas
Naquele 19 de agosto de 2014 estava excitada quando  vi aquela mulher que entregava seu filho a seu destino, sem medo, mas com aquele olhar que imagino que só os seres que amam sem condições podem ter ao deixar que se vá o que mais querem neste mundo.

O primeiro desafio é tentar tirar os olhos daquela mulher e daquele menino, pois eles te olham fixamente. Aliás, menino que é Jesus, em uma de suas representações mais bonitas como criança. Ela é Maria, e neste caso a Madona Sistina. Nome machista, na minha opinião, ela é a rainha da tela, e leva o nome do santo que aparece a seu lado esquerdo (olhando para o quadro) São Sisto (Sixtus). Do outro lado, Santa Bárbara, que estaria olhando para seus fieis, mas que tem uma cara meio pretensiosa, nada a ver com a serenidade do olhar da Madona e do menino.
A Madona Sistina e os anjos de Rafael
A Madona e os santos estão sobre nuvens, e ao seu redor, algo que não tinha chamado minha atenção durante todos estes anos até “vê-lo em pessoa”, um montão de rostos de anjinhos em tom azulado, e ao vivo isso é de uma força assombrosa. Parecem cantar este amor maternal acima de tudo, muito mais que uma cena religiosa, aliás tem algo mais potente que amar? Em tempos de decapitação, amar não tem ideologia, preconceito ou julgamentos rápidos.

Nenhuma reprodução capta a força daquele instante teatral, que até parece antever o seguinte movimento artístico que chamava às portas, o barroco. Toda a cena está emoldurada por duas pesadas cortinas verde, mas que a gente só se dá conta quando olhamos o quadro com o tempo que ele se merece 😉

Na parte debaixo, mas não menos importante, dois anjos com cara de entendiados. Os anjos mais famosos de toda história da arte, tanto que desde o século 19 ganharam uma versão protagonista total, e tem muita gente que não sabe que eles são uma pequena parte de um baita quadro.
Rafael Sanzio - Madona Sisitina e seu mecenas
Quadro que foi encomendado pelo Papa Julio II, porque pintar um quadro de 2,60 por 2,01 metros naquela época era caro prá caramba, e nem estou falando da mão-de-obra, mas apenas dos materiais. Portanto, estes quadros gigantes que você vê nos museus tinham destino certo!
Papa Julio II - Rafael Sanzio
No século 18 a Madona abandonou Piacenza. Depois de 2 anos de negociação, o príncipe-eleitor saxão Augusto III conseguiu comprá-la por 25.000 escudos romanos. A venda teve a aprovação papal. Os monges a venderam para saldar dívidas do mosteiro, ninguém escapa, hein!?

No dia 21 de janeiro de 1754 ela abandonou Piacenza. Levou quase 2 meses para chegar em Dresden, e disem que o princípe teria dito: “Façam uma sala para o grande Rafael!”. Mas a pobre não teve sossego, em 1945 foi levada para a União Soviética como espólio de guerra. Somente 10 anos mais tarde retornaria a Dresden, ufa!

Ufa mesmo, porque assim naquela incoerente terça fria de verão, estive com aquela mulher. Que me lembrava a gritos uma canção antiga espanhola, que fala deste amor que a gente acredita capaz de obrar “milagres” …
“Yo!! te amo con la fuerza de los mares,
yo, te amo con el impetu del viento
yo, te amo en la distancia y en el tiempo
yo, te amo con mi alma y con mi carne
yo, te amo y su mañana”

E sai de lá sem querer sair. Sem exorcizar àquela belezura, que entrou para formar parte dos meus ossos, da minha carne, da minha alma.

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8 Comentários

  1. Florentina Cassol

    Patricia, tive desejo de chorar , que leitura ! A forma como descrevestes o quadro, a história, tudo magnífico ! E fizer que fui a Dresden e não vi essa maravilha ! Viagens através de pacotes , tudo muito rápido … Parabéns bela e inteligente mulher!

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    • Patricia de Camargo

      Florentina, já tem uma desculpa para voltar 😉
      beijos e brigaduuu por seu carinho!

      responder
  2. Beatriz

    Patricia, eu amo todos os seus textos, principalmente estes que falam de arte. Consigo sentir cada palavra. Me identifiquei com a sua emoção, eu também tenho carinho ou admiração especial por certos quadros e artistas. Já chorei vendo ao vivo o meu quadro favorito do Monet e até hoje me arrepio ao lembrar. É inexplicável!!!! E quando eu te leio não me sinto estranha, como muitas pessoas pensam que sou, hahaha! Beijos

    responder
    • Patricia de Camargo

      Beatriz, sem saber você me ajudou bastante num daqueles momentos em que as forças fraquejam! Brigaduuuu pelo comentário 🙂

      responder
  3. Leonardo Oliveira

    Hola!Parabéns 🙂 Estavas mesmo inspirada ao escrever esse texto. 😉

    responder
    • Patricia de Camargo

      Brigaduuuu Leonardo 🙂

      responder
  4. Ana Luisa

    Muito lindo e a descrição transmite muita emoção. Patrícia você é demais!

    responder
    • Patricia de Camargo

      Brigaduuuu Ana Luisa 🙂

      responder

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